sábado, 9 de julho de 2016

Cinco anos de Tempos Safados: post comemorativo

No mês passado Tempos Safados completou cinco anos. Depois de todo este tempo e dos perrengues pelos quais passou e ainda continuar vivo, considerei que seria interessante escrever um post autorreferente para comemorar a data. Então este post vai contar sobre bastidores da trajetória do blog, coisas que inclusive nunca vieram a público.

<< O início >>

Foi exatamente no dia 03 de junho de 2011 que resolvi abrir este espaço. Na época eu lecionava história na escola da Penitenciária Prof. Pimenta da Veiga e surgiu uma discussão de âmbito nacional a respeito de um livro didático que utilizava expressões coloquiais para ensinar modos corretos de se expressar o português conforme o contexto, escrito ou falado. O debate chegou ao ambiente de trabalho e círculo de amizades, dividindo opiniões. Como para mim não existia ainda Facebook, escrevi um “textão” sobre o assunto e colei na porta do meu armário da escola. Depois, seguindo inspiração do Diego Leão, um amigo com quem dividia aluguel na época e que possuía um blog muito interessante de contos e poesia, criei o Tempos Safados.

A proposta de abrangência do blog em seus primórdios era muito modesta. Durante muito tempo meus (únicos?) interlocutores eram colegas mais próximos. A maioria cursava graduação ou pós-graduação em história na Federal de Uberlândia, outros tinham transferido a pouco tempo ou faziam outros cursos. Os nomes de alguns inclusive aparecem nos primeiros posts. Era a partir de discussões iniciais presenciais ou virtuais com eles que nasciam os posts. Depois dos seis meses iniciais, fazendo no máximo um post por mês porque eu trabalhava muito, o blog começou a ter mais visitas e foi tomando uma forma um pouco diferente daquela que o originou. Pois por mais que houvesse embasamento nos posts em formato de artigo de opinião, eles eram bem direcionados.

<< O segundo limiar >>

Com o aumento dos acessos passei a escrever textos para o público geral. Criei uma linha editorial. Fiz uma apresentação demonstrando objetivos e perspectivas, explicando até a escolha do título do blog que ainda hoje causa estranheza (inclusive em mim). Esta apresentação, meio tosca, é a mesma até hoje (por puro descaso, confesso). A ideia deste segundo início e ainda vigente, era, além de problematizar questões (coisa que já tentava fazer), apresentar perspectivas distintas do senso comum que as leituras e discussões do curso haviam me ajudado a construir. Se fosse para reforçar opiniões e visões já correntes não faria sentido criar um blog, bastaria entrar na caixa de comentários do G1. O intuito, por mais ingênuo que seja, tem uma conotação iluminista. Mas também libertária. O que quer dizer que, sim, quero informar ao leitor determinadas concepções de olhar sobre mundo e de construir conhecimento. Contudo não gostaria que ele tomasse isso como uma lição final, nem tampouco a aceitasse completamente. O blog pode até ser uma mamãe-águia que traz comida de longe para seu filhote, mas ela também quer que ele voe e encontre seu próprio alimento, então, ela o empurra desfiladeiro abaixo como se dissesse: “Voe, disgrama ruim! Ou morra”. Nunca lidei bem com o fato do conhecimento produzido nas universidades ficar restrito a elas ou chegar, quando muito, à escola. E apesar de valorizar bastante este conhecimento, achá-lo importante e essencial para a vida, em muitos posts utilizo as “ferramentas” que aprendi com o próprio saber acadêmico para criticá-lo, demonstrando suas fragilidades e limites. Quer dizer, iluminismo: sim. Crítica ao “esclarecimento”: também. Mas para isso o leitor precisa ir atrás de outras referências, precisa ser curioso, no mínimo, investigando as obras indicadas que deixo.

<< Eu, leitor de mim >>

Um blog não é um diário secreto. É óbvio que escrevemos para sermos lidos. Escrevemos “para os outros”. Mas olha. Esse processo de escrita, assim como o que Foucault chama de escrita de si (que é uma coisa totalmente distinta, diga-se), serve muito mais para quem escreve. O blog me ajudou bastante a estudar e a sistematizar a informação apreendida. Passei a recomendar a prática a todos os amigos. Ajudou-me a escrever melhor e mais rápido, a tentar ser mais claro e conciso, a colocar no “papel” de maneira organizada, coesa e coerente sistemas de pensamento complexos. Como qualquer exercício a escrita é um treino. E se aprimora escrevendo. Nesse sentido é perceptível a transformação que meus textos sofreram desde que iniciei o blog. Dos primeiros tenho inclusive até certa vergonha. Em vários eu fiz retoques na redação, embora mantendo a ideia para lembrar-me que já pensei de tal forma. Daqui uns cinco ou dez anos espero olhar para os textos de hoje e ter a mesma impressão. Triste é aquele que não muda. Que não percebe que melhorou ou, por arrogância ou preguiça, não quer melhorar.

<< Para mí, pero no mucho >>

Até por conta deste aprimoramento o blog foi ganhando algum rigor acadêmico, tornando-se mais sério. O relativo sucesso entre os colegas que liam o blog e me davam um feedback positivo (incrivelmente de diferentes perspectivas teóricas e/ou políticas) foi criando automaticamente uma responsabilidade. Não me considero perfeccionista, mas em geral gosto de fazer as coisas com algum esmero. Isto é, fazer o melhor que posso dentro de determinadas circunstâncias. E independentemente do retorno fico satisfeito quando consigo. Isso chegou ao ponto do conteúdo de algumas postagens servirem quase exclusivamente para os outros e baterem recordes de acessos. É o caso do resumo de Vigiar e punir. Eu já havia lido o livro. Alguns capítulos mais de uma vez, inclusive. Porém não havia feito nenhuma resenha ou fichamento. Foi quando o professor e amigo Deivy Carneiro me convidou para apresentar uma introdução do pensamento de Michel Foucault para uma turma de graduação. O professor discutiria Vigiar e punir em perspectiva paralela com O processo civilizador de Norbert Elias a questão da disciplina, do crime e da punição na modernidade (pelo que lembro). Foi então que resumi a obra e depois decidi subir no blog devido à falta de posts na época.

Muito por conta da responsabilidade imposta de mim sobre mim mesmo (“vou apresentar coisas novas/desconhecidas e interessantes ou postar resenhas e resumos úteis e bem escritos”, era o que meu superego dizia), mas também por conta do tempo escasso devido ao excesso de trabalho (seja nas escolas, seja correndo para escrever a dissertação de mestrado dentro do prazo), as postagens foram diminuindo cada vez mais e a vontade de parar o blog idem. Por vezes pensei em tornar o blog “mais comercial”, alterando o título e fazendo mudanças estruturais, como parcerias com editoras. Cheguei a comprar um domínio (brevestempos.com) que jamais utilizei. Isso tudo nunca vingou. Porque no fundo sou teimoso e conservador em alguns princípios. A exigência da produtividade para parcerias com editoras ou para alavancar as visualizações do blog é algo, na minha cabeça, contra a proposta de sua linha editorial. Não, não. Eu não vou criar um post com uma imagem descolada de um autor da moda (Foucault? Nietzsche?) com um mini-texto avassalador de sete linhas prometendo o ingresso para a saída da caverna e que, para isto, basta clicar num link cujo desdobramento se dá em mais dois parágrafos e que logo terminará com a indicação de outro link de mesmo naipe. Não faço porque não acho honesto com o leitor. Pode até passar uma sensação de conhecimento, mas olha, não é não, é só outro tijolo no muro do consumismo. É possível utilizar outras estratégias para atrair a atenção do leitor para o texto. Diletantismo? Tudo bem. Mas que seja sério. Pois de picaretas estamos cheios. Por isso me considero muito mais um ativista do esclarecimento, da educação, do “não deixe que a universidade atrapalhe seus estudos” (como repetia sempre um professor com quem aprendi muito e ao qual sou grato, apesar dos pesares) do que um braço do diletantismo cult.

<< O pagamento >>

Talvez por conta do blog ter começado sem grandes pretensões ele segue mais ou menos assim até esta data. É um hobby. Faço por diversão. Nunca recebi um único centavo para escrever. Mas quem sabe um dia, depois de seu fim, reúna e reconstrua alguns textos e publique em formato de livro (o que não quer dizer que vou lucrar com tal. Livro no Brasil só dá dinheiro para editora e livraria e Augusto Cury). Apesar disso, é preciso dizer que embora não tenha entrado dinheiro na minha conta, o retorno sempre existe. Vem em forma de incentivos que recebi durante todo este tempo, principalmente, de amigos e colegas. Por mais divertido que seja escrever é bem mais prazeroso quando seu trabalho é reconhecido. A gente vive em sociedade, então é inevitável que os elogios e as críticas exerçam algum efeito sobre seu ânimo e conduta. Fico extremamente contente quando algum leitor aparece dizendo que tal texto lhe ajudou de alguma maneira. Esse pagamento é o que mantém a bagaça na ativa.

Conheci algumas pessoas através do blog. De algumas me tornei amigo virtual: Aline, Silvio, Vivian, Ivana e Bruno (que aliás sumiu), respectivamente do Paraná, do Rio, do Rio também, do Pará, de Sampa, são alguns destes que estiveram ou estão na lista de amigos do Facebook e com quem aprendo e interajo bem. Gente que provavelmente não conheceria de outra forma. Uns vem e vão. Uns enviaram textos para meu e-mail com o intuito de continuar discussões iniciadas no blog. Umas fluíram, outras não. E o melhor elogio veio de um colega inteligente e estudioso, vejam só, de ideias conservadoras e com quem não tenho mais contato (são as voltas que a vida dá), disse mais ou menos algo como “é o melhor blog de história que existia no Brasil” (exagero, óbvio) e que eu “escrevia tudo direitinho” (ele queria dizer que eu não deturpava os autores, acho). O interessante é que se este colega elogiasse minhas concepções políticas eu ia desconfiar muito de mim mesmo, não ia ficar contente, achando que estivesse agindo errado. E vieram outros incentivos tão bacanas e motivadores quanto. De amigos, de professores, de alunos... e de estranhos. Agradeço o obrigado de todos.

<< Hello, strange >>

Além de elogios sempre tem o espanto com o nome do blog. Um professor disse certa vez que não poderia ter nome melhor. Acho que ele se referia às profanações à academia que faço, as “sacanagens”. A verdade é que em muitos lugares o acesso ao blog nem é possível porque bloqueia pornografia. E sempre que olho na página de administrador aparecem termos pornográficos nas palavras que trouxeram ao meu blog. Imagino que já passei raiva em muita gente ao longo destes cinco anos. Mas o nome também gera situações engraçadas como estas dez que coletei no Twitter:


01. Pois é, miga. Nunca julgue um livro pela capa.



02. Cavalo dado não se olha os dentes, não é mesmo, brou? Esse mundo é a hipermodernidade.



03. Há Certeau, mizeravi!



04. E quem falou que teoria da história não pode ser excitante?



05. “Vai ter sim! E se reclamar vai ter duas vezes”, diga ao seu professor.



06. Aprecie com moderação, amigo.



07. Outra época divertida do blog foi quando adicionei uma ferramenta em que se podia ver de onde vinham os acessos. Por exemplo, a cidade, o tipo de navegador, o post, a duração da visualização, a operadora de internet e etc. Foi então que descobri acessos impensáveis como alguns vindo do Supremo Tribunal Federal (sim, o STF) de Brasília. E eles estavam lendo Vigiar & Punir. Bom, se eles podem, né, Marquinhos, então você também.



08. Provavelmente este é o relato mais divertido e também preocupante:



Dias depois:



Professores, cobrem resenhas dessa galera! Hahahahaha...

09. Agora a maior surpresa de todas do universo. A NASA (Nasa Glenn Research Center) lendo textos do blog. E logo um que falava sobre o apoio dos Estados Unidos ao Golpe Militar de 1964 no Brasil. Fiquei preocupado em me mandarem para Guantánamo. Felizmente não era a CIA.



10. É o que sempre digo:



Depois de cinco anos é possível que o blog feche as portas de vez. Óbvio que os textos continuarão online, o domínio do blogger é público e grátis. Um segredinho: a ideia era chegar aos 100 posts em junho (estou no 95) e encerrar com algo parecido com isso aqui, mas não consegui e tenho uma lista de temas para posts mais velha do que um tricerátops. Então o blog deve seguir até o final do ano, quando pensarei numa mudança. Vou continuar escrevendo mas noutro formato e em outro domínio. Não sei qual. Ou talvez mude para um canal no YouTube para me adaptar à nova realidade de público. Hoje o Facebook ajuda a divulgar as publicações mas também a gastar nosso precioso tempo procrastinando ou nele escrevendo laudas e laudas, que serão perdidas em dois dias ou menos. É inegável o esfacelamento que isso promoveu nos blogs.

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E você, que está lendo este texto, tem algum comentário a fazer? Há algo inusitado sobre o blog para contar? Conheceu Tempos Safados através de algum texto em específico? Algum elogio ou crítica? Comente à vontade aqui embaixo. E muito obrigado por tudo nestes cinco anos. 
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12 comentários:

  1. Munhoz! Esse blog merecia mesmo um texto assim. Você tem uma escrita fantástica e muitos temas que a princípio julgávamo s difíceis ou até mesmo chatos com você se tornaram agradáveis de ler! O blog Foucault melhor com o passar do tempo, e é exercitando a escritura é leitura que isso tende a acontecer. Hahaha o nome do blog sempre traz recordações engraçadas: lembro de uma vez comentar naturalmente no trabalho sobre ele e o pessoal me olhar com cara de espanto pra só depois eu perceber que era por causa do nome. Munis, te admiro demais meu caro! E esse blog é realmente um dos melhores que já vi!

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    1. Escrever pelo smartphone é foda! Erro demais.. rs não repare

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    2. Muito grato pela leitura, Amandinha. Lembro de um comentário seu ao texto sobre "a venda das esposas", igualmente incentivador. Quanto tempo! Sem dúvidas há posts aí que contém inspirações vindas de conversas nossas. Um abraço.

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  2. Muito bom este texto. Ri em vários momentos. E Parabéns pelo blog, Munís. Sem dúvida um dos melhores blogs na área de história. Acho que foi por causa do Rancière comentando Braudel que cheguei aqui. E foi num momento importante porque na época eu pensava em desistir do curso de história. Ler textos tão consistentes (sem falar das excelentes referências bibliográficas) incentivou-me a continuar esta paixão que estava ficando adormecida. Obrigado.

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    1. Fico realmente feliz com isso, Júlio. Você é um leitor valioso para o blog, sempre comentando e trazendo outras informações. Espero que tudo tenha dado certo em sua monografia, que fiquei curioso para ler. Abraços!

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  3. Quais são os novos domínios e/ou canal no youtube que você falou no texto?

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    1. Ainda não os abri, meu caro. Aviso aqui caso isso ocorra.

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  4. Tinha que vir aqui comentar( e me gabar um pouquinho também) da importância do blog para ampliar minhas visões e estudos nas ciências humanas além dos teóricos clássicos da educação... com certeza a "safadagem" me ajudou a agora entrar no Mestrado em Educação. Muito obrigada pelas boas influências, Munís!

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    1. Que ótima notícia, Vivian. Fico contente que o blogzinho tenha lhe impulsionado a alçar voos mais altos. Abraço!

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  5. Fantástico!! O blog me ajuda muito na graduação, poucas vezes me deparei com textos tão envolventes assim. Os pitacos safados são ótimos!! hahahaha Parabéns.

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  6. Eu adorei o nome desde que conheci, infelizmente este ano. As irreverências me atraem, mas isso seria inútil não fossem a qualidade e criticidade dos textos. Sou professora de redação para vestibular e tenho compartilhado na minha página: Redação para Vestibular Prof. Nara Catib - vários links de "Tempos Safados" como também passado aos alunos por e-mail. Um dos melhores blogs que já conheci. Difícil encontrar trabalho sério e de qualidade no google que traz em primeira mão tudo que é pago. Um privilégio estar aqui. Parabéns "Tempos Safados"

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  7. Passando pra dizer que o Tempos Safados tem que continuar, até porque o nome nunca foi tão pertinente para nossa experiência tempo e espaço. No mais, obrigada!!

    Volta a escrever, Durvinha! Porfaaaa...

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